11:18 - 12 de março de 2026.

A Muralha: literatura, história e reflexão

A Muralha: literatura, história e reflexão

 em Cultura

Ler A Muralha, de Rachel de Queiroz, é viajar ao Brasil do século XVII, período marcado pelas expedições dos bandeirantes, pela expansão territorial e pelos conflitos próprios do processo de colonização. Embora seja uma obra de ficção, o romance dialoga fortemente com acontecimentos históricos e com personagens inspirados em figuras reais, como Ambrósio Caldeira Brant. A referência tem para mim um significado especial: pertenço à linhagem da família Caldeira Brant, sendo descendente de Felisberto Caldeira Brant, cujo pai também se chamava Ambrósio.

Minha primeira leitura do livro ocorreu em 1970, quando eu cursava o primeiro ano ginasial. Recordo-me de que li a obra em apenas um dia e meio, fascinada pela narrativa e pelo universo que ela apresentava. Décadas depois, em 2021, voltei a reler o romance. Dessa vez, porém, o olhar era outro: o de uma leitora amadurecida e formada em História. Essa nova leitura permitiu perceber nuances que, naturalmente, escapam a um leitor muito jovem.

O romance nos conduz ao cenário do Brasil colonial, quando as chamadas Bandeiras — expedições organizadas por paulistas rumo ao interior — buscavam riquezas, terras e, muitas vezes, indígenas para escravização. Esse movimento teve papel decisivo na ampliação do território brasileiro. Ao inserir seus personagens nesse contexto, Rachel de Queiroz apresenta os desafios enfrentados pelos desbravadores e as contradições desse processo histórico, e alguns personagens estabelecem claras relações com figuras históricas. Dom Braz, por exemplo, representa o perfil dos grandes sertanistas da época, como Domingos Jorge Velho. Já Tiago simboliza o jovem dividido entre os desejos pessoais e as obrigações sociais impostas pelo seu tempo. Madalena, por sua vez, destaca-se como uma personagem que desafia as expectativas impostas às mulheres do período colonial, trazendo à narrativa uma reflexão importante sobre o papel feminino na sociedade da época.

Para além da narrativa envolvente, A Muralha permite refletir sobre temas centrais da formação do Brasil: as expedições bandeirantes, os conflitos com os povos indígenas e a construção das primeiras estruturas sociais no interior do território. Ao mesmo tempo, abre espaço para comparar a ficção literária com registros históricos, ampliando a compreensão sobre esse período.

Por isso, considero a obra extremamente valiosa também no campo educacional. Professores de Língua Portuguesa, História e Geografia podem encontrar no romance um excelente ponto de partida para discussões interdisciplinares, incentivando os alunos a relacionar literatura e contexto histórico, pois mais do que um romance histórico, A Muralha é uma obra que estimula reflexão sobre o passado brasileiro e sobre as múltiplas perspectivas que compõem nossa história. Ao revisitá-la depois de tantos anos, percebi como a literatura tem o poder de revelar novas camadas de significado conforme amadurece o olhar do leitor.

Em tempos em que o hábito da leitura enfrenta tantos desafios, retomar obras como esta torna-se ainda mais necessário. Elas nos lembram que compreender a história também passa pela sensibilidade da literatura.

 

DADOS DA OBRA

QUEIROZ. Rachel de. A Muralha,
publicado em 1954 (ano em que nasci).
Gênero: Romance histórico
Contexto histórico: Brasil colonial do século XVII e o movimento das Bandeiras
Autora: Sandra do Val Candido
Professora Bacharel Mestre em História e Bacharel em Arquivologia, Membro da Academia de Letras de Vassouras
Edição e revisão: ChatGPT – Assistente de Escrita e Revisão Editorial (OpenAI)

 

 

 

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