Por Adelci Silva dos Santos, pós-doutorado em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é professor de História da África na Universidade Federal do Tocantins, coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UFT, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras e do Instituto D´orbigni de Pesquisa
A relação entre História e Memória constitui um dos eixos centrais da reflexão historiográfica contemporânea. Embora frequentemente confundidas no senso comum, essas duas categorias operam de maneiras distintas, porém profundamente complementares. A História, enquanto disciplina científica, dedica-se à análise crítica do passado por meio de métodos, fontes e problematizações rigorosas. A Memória, por sua vez, refere-se aos modos pelos quais indivíduos e coletividades constroem, preservam e transmitem representações do passado, carregadas de afetos, valores e identidades.
Essa distinção não implica oposição. Ao contrário, como demonstram diversos historiadores, a memória é matéria-prima indispensável à escrita da história, ao mesmo tempo em que a história exerce um papel crítico fundamental sobre as memórias sociais.
O sociólogo francês Maurice Halbwachs, em A Memória Coletiva, foi pioneiro ao demonstrar que a memória não é um fenômeno estritamente individual, mas socialmente estruturado. Para Halbwachs, os grupos sociais fornecem os quadros nos quais as lembranças são organizadas e reinterpretadas, o que significa que toda memória é, em alguma medida, coletiva.
Essa perspectiva foi aprofundada por Jacques Le Goff, especialmente em sua obra História e Memória, na qual o autor ressalta que a memória é seletiva, simbólica e frequentemente vinculada a relações de poder. Para Le Goff, cabe ao historiador transformar a memória em objeto de crítica, distinguindo o documento do monumento e compreendendo como o passado é instrumentalizado no presente.
Outro autor de grande vulto é Pierre Nora, com o monumental projeto Les Lieux de Mémoire, que identifica os “lugares de memória” como espaços — físicos ou simbólicos — nos quais a memória coletiva se cristaliza quando a experiência viva do passado começa a se dissipar.
No Brasil, José D’Assunção Barros, consagrado historiador que lecionou durante vários anos na Universidade de Vassouras, tem oferecido reflexões fundamentais sobre a relação entre História e Memória e, sobretudo, sobre a importância da História Regional e Local. Para Barros, a memória não deve ser vista como simples repositório de lembranças, mas como uma forma de construção social do tempo, que dialoga com a história de maneira dinâmica e conflitiva.
Em seus estudos sobre teoria da história, Barros enfatiza que a História Regional não representa um recorte menor ou periférico, mas um campo privilegiado de análise, capaz de revelar a complexidade dos processos históricos em escalas mais amplas. O local, nesse sentido, não se opõe ao geral; ele o ilumina, o tensiona e o concretiza.
A História Regional permite compreender como grandes processos — econômicos, políticos, religiosos e culturais — se materializam em contextos específicos. Ao valorizar experiências locais, ela amplia o campo historiográfico, incorporando vozes, práticas e memórias que frequentemente permanecem ausentes das narrativas nacionais tradicionais.
Além disso, a história regional fortalece o vínculo entre a produção acadêmica e a sociedade, contribuindo para a formação de identidades, para a preservação do patrimônio e para o exercício da cidadania histórica.
Dentro deste nicho da História, o município de Vassouras, no Vale do Paraíba fluminense, constitui um exemplo eloquente da articulação entre História, Memória e História Regional. Sua trajetória histórica — marcada pela economia cafeeira, pela escravidão, pela formação de elites locais e pela constituição de instituições civis e religiosas — só pode ser plenamente compreendida a partir do diálogo entre fontes documentais e memórias coletivas.
Nesse contexto, merece destaque o esforço realizado pela Paróquia de Vassouras, sob a direção do Padre José Antônio, e pela Diocese de Valença, especialmente no ano de 2025, quando se comemorou o centenário da Diocese. Ao longo desse ano, e em continuidade posterior, a Diocese promoveu um amplo projeto de pesquisa, sistematização e divulgação histórica, que resultou na publicação de mais de cinco livros e diversos artigos acadêmicos e de divulgação, voltados à compreensão do papel histórico da Igreja Católica na região.
Entre os capítulos e estudos produzidos, destacam-se títulos como:
- “Monsenhor Nathanael: a encarnação do sacerdócio”, que resgata a trajetória de um sacerdote emblemático para a formação espiritual e social da região;
- “Padre Argemiro Broxado Neves”, enfocando sua atuação pastoral e comunitária;
- “O Colégio dos Santos Anjos em Vassouras-RJ (1906–2016)”, que analisa o papel da educação católica na formação de gerações e na construção da identidade local;
- “O papel dos leigos na Igreja Católica: a Diocese de Valença – RJ”, evidenciando a participação ativa dos fiéis leigos na vida e na missão da Igreja;
- “Padre Barreira e seu legado: a Associação Missionária Maria Medianeira e o cinema como ferramenta de evangelização”, que revela uma dimensão inovadora da ação pastoral, articulando fé, cultura e comunicação.
Além desses capítulos, foram publicados livros de fôlego, como:
- Padre Sebastião da Silva Pereira: o apóstolo da educação, cultura e evangelização, incluindo textos post mortem, que reafirmam sua centralidade na vida intelectual e religiosa regional;
- Padre João Pedron: um sacerdote a serviço da vida pública, ressaltando a interface entre Igreja, política e sociedade;
- Vida e Obra de Padre Barreira: o cinema como forma de evangelização – cinema, fé e ação, que aprofunda o uso do cinema como instrumento pastoral e educativo.
Essas obras demonstram como a Igreja Católica atuou historicamente não apenas como instituição religiosa, mas como mediadora de conflitos desde o século XVIII, promotora da educação, da cultura e da assistência social, desde a mediação de disputas de terras no século XVIII até a criação de museus, escolas e instituições de acolhimento ao longo dos séculos XIX, XX e XXI.
O conjunto dessas pesquisas demonstra que o cristianismo católico desempenhou papel central na formação e no fortalecimento das comunidades nascentes, funcionando como espaço de mediação social, produção cultural e organização institucional. Em Vassouras, a presença da Igreja não se limitou à esfera religiosa: ela contribuiu para a estruturação do espaço urbano, para a educação, para a assistência social e para a construção de redes de solidariedade.
Particularmente relevante foi o esforço da Diocese de Valença em recolher, organizar e disponibilizar fontes documentais — como arquivos paroquiais, registros administrativos, correspondências e documentos históricos — para os diversos historiadores envolvidos no projeto. Essa abertura institucional representa um ponto altamente positivo, pois fortalece a pesquisa histórica, promove a transparência das fontes e estimula novas interpretações sobre o passado regional.
A experiência de Vassouras e da Diocese de Valença ilustra, de maneira exemplar, como História e Memória podem dialogar de forma produtiva, especialmente no campo da História Regional. A memória institucional e comunitária, quando submetida ao crivo da pesquisa histórica, transforma-se em conhecimento crítico, contribuindo para uma compreensão mais ampla, plural e fundamentada do passado.
Assim, a articulação entre historiadores, instituições religiosas e comunidade local revela-se não apenas legítima, mas necessária para a preservação do patrimônio histórico, para a valorização das identidades regionais e para o fortalecimento do papel social da História no tempo presente.