Maria Thereza Mattoso do Carmo Wenke Motta atua na reorganização administrativa, renegociação de dívidas e recuperação de imóveis históricos deixados por Eufrásia Teixeira Leite
Desde julho do ano passado, a Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Vassouras vive um momento decisivo. À frente da instituição após a destituição da antiga administradora, a provedora em exercício, Maria Thereza Mattoso do Carmo Wenke Motta, tem dedicado os dias a uma pequena força-tarefa para enfrentar a grave crise financeira herdada e buscar alternativas que garantam a sustentabilidade do patrimônio deixado por Eufrásia Teixeira Leite.
Segundo a provedora, anos de descaso com os bens da Irmandade resultaram em dívidas milionárias — cujos valores exatos ainda estão sendo levantados — e na deterioração severa de imóveis estratégicos, inviabilizando sua principal fonte de renda: a locação. A instituição depende basicamente do aluguel de três grandes propriedades: o Colégio Regina Coeli, o Hospital Eufrásia Teixeira Leite e o Espaço Joaquim Teixeira Leite.
Desses, apenas o Espaço Joaquim – antigo Senai – apresenta unidades em condições mais favoráveis para locação imediata, por se tratar de construção mais recentes. Ainda assim, o imóvel demanda reparos em prédios e sistemas, os quais já vêm sendo realizados. Já o Colégio Regina Coeli e o Hospital Eufrásia Teixeira Leite se encontram em situação crítica, tomados pelo mato e com sinais evidentes de deterioração, fruto de um longo período de abandono.
“O estado extremamente precário de dois dos nossos maiores imóveis tornou inviável a geração de receita. Por isso, nossa prioridade tem sido organizar e centralizar as execuções trabalhistas, além de viabilizar a retomada da locação desses bens”, ressaltou Maria Thereza.
No caso do Hospital Eufrásia Teixeira Leite, a situação é ainda mais grave. De acordo com a provedora, o imóvel foi devolvido à Irmandade em condições alarmantes, com a retirada do telhado, comprometendo seriamente a estrutura e acelerando o processo de deterioração. A unidade havia sido ocupada por um grupo que, segundo ela, não possuía plano de investimentos nem condições mínimas para gerir um equipamento daquela dimensão.
O contrato foi firmado com esse grupo pela gestão anterior, após a rejeição expressa pelo Conselho de Administração da Irmandade, que verificou a ausência de condições mínimas de gestão e pagamento.
Provocada a apresentar documentação e comprovações essenciais, nada foi feito. Assim, a atual gestão ajuizou ação judicial na qual foi determinada a suspensão das obras no imóvel e, ao final, a empresa se retirou. Segundo Maria Thereza, isso agravou ainda mais a situação da instituição.
O cenário, avalia a atual gestão, revela um nível de negligência incompatível com a importância histórica e social do legado de Eufrásia Teixeira Leite, cuja memória está diretamente ligada ao desenvolvimento educacional e assistencial de Vassouras.
Soluções imediatas
Mesmo diante de recursos escassos e com uma equipe administrativa reduzida, a atual provedora afirma que a prioridade é firmar parcerias que permitam que os bens da Irmandade voltem a cumprir seu papel social. Até a realização das eleições que irão determinar o novo provedor, a equipe montada por Maria Thereza segue tocando projetos de reestruturação administrativa.
A instituição informa já ter requerido à Justiça decisão resolvendo as poucas pendências de mérito no processo que determinou a suspensão das eleições, o que permitirá a realização das mesmas. A Irmandade requereu também a fiscalização das eleições pelo próprio Poder Judiciário, o que dará maior transparência ao pleito.
“Estamos estruturando a retomada de uma administração profissional da Irmandade, com transparência e governança, superando práticas personalistas do passado que são amplamente conhecidas na cidade”, afirmou a provedora, que já anunciou que pretende disputar a eleição.
No campo jurídico, uma das alternativas em estudo é a concessão de direitos de superfície, de forma remunerada, sobre áreas pertencentes à Irmandade que hoje não podem ser exploradas por falta de recursos para investimento. A proposta prevê que terceiros possam construir e explorar essas áreas por um período determinado, garantindo retorno financeiro à instituição. Ao final do prazo, as benfeitorias seriam incorporadas ao patrimônio da Irmandade.
Isso permitirá que as terras hoje sem utilização sejam mantidas na instituição, mas passem a gerar receitas.
A expectativa da atual gestão é que, com essas medidas, seja possível iniciar um processo gradual de recuperação financeira e patrimonial, preservando o legado histórico de Eufrásia Teixeira Leite e devolvendo à Irmandade o protagonismo social que marcou sua trajetória em Vassouras.
Foto: Willian Brito