Na esteira dos 100 anos da Diocese de Valença, Igreja Católica revisita seu passado e publica obras que ajudam a contar parte importante da história de Vassouras e região
Em 2025, os católicos de Vassouras celebraram os vinte e seis anos da chegada do padre José Antônio da Silva ao município. Em dezembro, a TRIBUNA DO INTERIOR publicou uma entrevista de duas páginas com o padre que figura, desde o ano passado, como o mais longevo dos quase duzentos anos de catolicismo no município. No futuro, quando jornalistas, historiadores ou interessados na história da religiosidade de Vassouras se debruçarem sobre a passagem deste mineiro de Rio Preto pela Paróquia de Nossa Senhora da Conceição será difícil não notarem a importância de José Antônio para a salvaguarda da memória do catolicismo em Vassouras e região.
Na esteira dos 100 anos de criação da Diocese de Valença — completados em março de 2025 – José Antônio, que é vigário-geral da Diocese, recebeu a incumbência de organizar, dentro das celebrações do centenário, uma revista a respeito da data e livros sobre a história da Diocese. No site da Diocese (diocesedevalenca.org.br) estão disponíveis, por exemplo, Diocese de Valença 100 anos de História – Vários Olhares, volumes I e II, Centenário da Diocese de Valença – Resgatando a história que nos impulsiona para a missão, além de obras que rememoram nomes importantes na construção desta história: João Pedron – O Sacerdote no Exercício da Vida Pública; Padre Sebastião da Silva Pereira O apóstolo da Educação, Cultura e Evangelização e Vida e Obra do Padre Barreira e a Associação Missionária de Maria Medianeira – Cinema, fé e ação. Em Vassouras, o padre Zé Antônio mobilizou pesquisadores católicos a se debruçarem nas histórias dos quase 200 anos da Igreja em solo vassourense. A pesquisa, até agora, desembocou em duas obras fundamentais para se conhecer detalhes da história do catolicismo no município. Raízes da Fé: A presença da Igreja Católica em Vassouras, rumo aos 200 anos (1828-2028) e História, Patrimônio Cultural e Religiosidade: a Igreja Católica em Vassouras, rumo ao bicentenário. “Seria um livro só, mas convencemos o padre José Antônio a desmembrar a pesquisa em duas obras”, comenta o historiador Angelo Ferreira Monteiro, professor da Univassouras, católico, membro da Irmandade Nossa Senhora da Conceição e doutor em História, um dos responsáveis pela pesquisa.
Segundo José Antônio da Silva, a ideia de se debruçar sobre a história da Diocese – e por consequência da paróquia — surgiu no ano 2000. “Quando celebramos os 75 anos da diocese já tínhamos percebido a necessidade do resgate da história, fazer a memória das paróquias, das comunidades. Esse levantamento foi feito em todas as cidades. Fruto desse trabalho, organizamos também o resgate da história da Paróquia e das instituições ligadas à Paróquia: Asepava, Irmandade, Colégio dos Santos Anjos, o próprio Colégio Regina Coeli. E em 2028 vamos celebrar os 200 anos da Igreja em Vassouras, momento mais que propício para visitarmos a história, a construção da Igreja por aqui”, comenta José Antônio.
Envolvida na pesquisa que culminou com a publicação de Raízes da Fé, apresentado à comunidade católica pelo padre Zé Antônio durante a Missa Solene pelo Dia da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro, ao lado de História, Patrimônio Cultural e Religiosidade, a historiadora Ilza Carla Brum Bastos Pinho, formada pela então Universidade Severino Sombra e com 34 anos de serviços prestados à rede municipal de Vassouras, acredita que a “a importância desse trabalho é resgatar e manter a história do surgimento das comunidades católicas : como surgiram, quais desafios enfrentaram e ainda enfrentam na construção desses espaços”. Ilza Carla, católica que frequenta as missas na paróquia, revela que um questionário foi enviado às comunidades, que também receberam visitas dos pesquisadores. “Utilizamos a pesquisa também em documentos que pertencem a paróquia, como atas, registros fotográficos, jornais e livros tombo”, afirma.
Angelo Monteiro destaca o comprometimento dos pesquisadores com o projeto capitaneado pelo padre José Antônio. “A Ilza, a Sandra Cândido, a Vivian Lacerda, as pessoas se envolveram, se comprometeram com o projeto. Com elas, o registro nas comunidades foi muito além dos questionários, utilizando fontes orais. E as pessoas puderam lembrar os primórdios das comunidades, o que existia de movimento, de pastorais no passado e o que existe hoje. Esse comprometimento me chamou muita atenção. O padre sempre usou a palavra legado, sempre falou na importância de se deixar um legado. As marcas históricas vão ficar nos registros, mas a fonte oral vai além. Todo mundo abraçou a ideia. Tem as imagens do Ivo Avellar ao longo da obra, a arte da capa produzida pela minha esposa, a Nelzimar Monteiro. Foram várias pessoas envolvidas, um corpo editorial robusto para se chegar à essas obras, que foram editadas pela Universidade de Vassouras, que também abraçou o projeto”.
Monteiro destaca ainda o envolvimento do padre José Antônio com o patrimônio e a história de Vassouras e do Vale, para além da questão religiosa. Ele cita como exemplos deste compromisso a criação do Museu de Arte Sacra, o Centro de Memórias e as próprias publicações. “O que fica para a sociedade, para a cidade, é o legado do que foi o passado não só da paróquia, mas das comunidades, para que não se percam estes registros. E que se ampliem as pesquisas sobre essas comunidades. Que venham outras publicações”, comenta. Entusiasta das pesquisas, padre José Antônio lembra o trabalho do estudante de Arquitetura da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Matheus de Freitas Minervino, a respeito da Igreja de São Sebastião, localizada em Ferreiros, publicado em História, Patrimônio Cultural e Religiosidade. O pároco aponta, ainda, a importância da dissertação de Mestrado de Ana Paula Vieira, sobre a ligação da Igreja de Nossa Senhora do Rosário com os escravizados e seus descendentes. A empolgação do padre e a importância e o cuidado do trabalho não deixam dúvida: vem aí uma nova publicação sobre a história da nossa religiosidade.
Para o historiador Adelci Silva dos Santos, pós-doutorado em História Política pela UERJ e professor de História da África na Universidade Federal do Tocantins, que atuou em diversas pesquisas provocadas pelo pároco de Vassouras, (leia artigo nesta publicação), “a experiência ilustra, de maneira exemplar, como História e Memória podem dialogar de forma produtiva, especialmente no campo da história regional. (…) a articulação entre historiadores, instituições religiosas e comunidade local revela-se não apenas legítima, mas necessária para a preservação do patrimônio histórico, para a valorização das identidades regionais e para o fortalecimento do papel social da História no tempo presente”.
História, Patrimônio Cultural e Religiosidade se debruça sobre a história das instituições católicas, enquanto Raízes da Fé joga luz sobre a história das comunidades católicas do município de Vassouras. As obras podem ser encontradas na Secretaria Paroquial, na Praça Sebastião Lacerda, fundos da Igreja Matriz, e na livraria da cidade.
