08:51 - 23 de julho de 2024.

Intérprete marcante do samba vassourense, João Gab...

Intérprete marcante do samba vassourense, João Gabriel Lebre morre, vítima de câncer, aos 60 anos

 em Vassouras
Historiador formado pela então Universidade Severino Sombra, o vassourense João Gabriel Baptista da Costa Lebre morreu, aos 60 anos, vítima de um câncer, na manhã da quarta-feira, dia 12, na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Universitário de Vassouras. João Gabriel foi sepultado no Cemitério Nossa Senhora da Conceição, no Centro Histórico. A Fundação Educacional Severino Sombra, onde João atuou por décadas, publicou nota de pesar em sua página na internet.
Filho caçula de dona Maria Lebre, uma das pioneiras no apoio ao general Severino Sombra em seu sonho de fazer de Vassouras uma cidade universitária, João Gabriel estabeleceu uma carreira profissional muito ligada à Fusve. Mas antes de trabalhar na Fundação, foi braço direito do ex-prefeito Narciso Silva Dias na gestão do extinto Colégio de Vassouras. Foi inspetor de alunos, entre outras funções, no colégio fundado por Maria Araújo e por décadas dirigido pelo icônico ex-prefeito. Foi lá, na Visconde de Araxá, bem pertinho da Dr. Fernandes onde fora criado, que João Gabriel foi pela primeira vez instrutor de fanfarra. “Ele era muito apaixonado por aquela fanfarra. Mais tarde, dirigiu a fanfarra do Regina Coeli também”, lembra o irmão mais velho, Felipe Lebre.
E não foi só o amor pelo som das fanfarras que João Gabriel levou do primeiro emprego. Órfão de pai muito cedo, João Gabriel conviveu de perto e aprendeu a admirar duas personalidades da história de Vassouras. “Meu pai sempre me disse que, como perdeu o pai muito cedo, duas pessoas o ensinaram a ser honesto, a ter caráter. O Dr. Narciso e, mais tarde, o General Sombra, quando ele começou a trabalhar na Universidade”, lembra o filho único de João, o professor de Educação Física Matheus Ribeiro da Costa Lebre.
Na Fusve, João trabalhou na Universidade e no hospital onde se despediu da vida na última quarta-feira. Quando a notícia da morte chegou ao campus, pouco depois das 9 horas, muita gente se consternou. Alguns cientes do quadro difícil da saúde do amigo, que se aposentou atuando no almoxarifado da Fundação, outros não fazendo ideia que, há quatro anos, João Gabriel enfrentava um câncer. Entre os amigos mais próximos e a família, apesar da dor e da tristeza com a despedida, a ideia era que João descansou. “Meu irmão estava sofrendo muito”, dizia a irmã mais velha, Irene, que atua na Coordenação de Infraestrutura do campus da Univassouras. Muitos funcionários da Fusve aproveitaram a hora do almoço para velar o amigo. Trabalhadores da Univassouras e do HUV. Gente que conviveu de perto com João trabalhando no mesmo setor ou que, mesmo de longe, sem o contato mais próximo, aprendeu a admirar o colega, apaixonado pelo Botafogo e pela Estação Primeira de Mangueira.
João Gabriel completaria oito dias internado na quarta-feira. Recentemente, o recrudescimento da doença o obrigava a ir e voltar do hospital com regularidade. O câncer fechava o cerco e o bravo João notara. Antes de ser entubado, ele chegou a pedir à mulher e ao filho que não se esquecessem: queria as bandeiras do Botafogo e do PT, de quem era eleitor fiel, no caixão. E foi assim que João foi velado na Capela do Divino Salvador, no Centro – e com a camisa do Botafogo.
Os funcionários da Fusve compareceram, mas não foram a única tribo a se despedir de João. Passaram pela capela os amigos do futebol – João fazia questão de bater as suas peladas e organizava a Pelada dos Bons de Copo, que ainda acontece aos domingos pela manhã na quadra de grama sintética do Madruga; os amigos do samba… Ah, o samba é um capítulo especial na vida de João. Garoto, foi um dos integrantes da bateria de Mestre Zé Reinaldo no histórico desfile do Surpresa em 1980, o carnaval em que a Unidos do Madruga garantiu o seu tricampeonato e a repercussão do título inviabilizou que a disputa continuasse nos anos seguintes. Sempre que provocado, João garantia que o resultado fora injusto. Mais tarde, voltaria ao Surpresa em seus episódicos reaparecimentos anos depois das três derrotas seguidas para o Madruga. Nestas ocasiões, João Gabriel aparecia no que talvez mais lhe fizesse feliz: à frente do carro de som, usando a voz forte e eloquente para interpretar o hino da escola. Sempre com seu indefectível bordão: “Eu te falei e você não acreditou”. Antes de poder cantar pela escola do coração, João fez quase de tudo no carnaval vassourense. Com os amigos Maurinho, Marquinho Abdalla, Toninho e Carlinhos, fundou a Turma dos Fanáticos, em 1989. O bloco faz parte das agremiações surgidas no final dos anos 1980, responsáveis pelo renascimento do Carnaval vassourense naquela época. Ficou marcado como intérprete do bloco. Nessa época, os blocos de enredo também chamavam a atenção do vassourense. E João Gabriel atuou no Unidos do Saramandaia, do Morro da Vaca. Ajudou a coordenar barracão, empurrar carro alegórico. Fez de tudo. Foi intérprete marcante também do Bloco Caçarola do Roliço.
Citado sempre como “intenso” pelos amigos, João foi sempre um apaixonado. Pelo Botafogo, desde criança. Pelo samba e pela Mangueira, há muito tempo. Por Lucia, a engenheira civil que ganhou o coração alvinegro de João, e pelo filho único, Matheus. João era boêmio e não escondia isso de ninguém. Nos últimos anos de Fundação, dizia que não via a hora de se aposentar, “para ficar de boa e tomar umas cervejinhas”. Ainda assim, quem tinha o mínimo contato com João sabia que ali estava um pai e marido exemplar. Boêmio, mas sempre muito próximo da família. Pai e marido cuidadoso, mas que não deixava de separar um tempo para as resenhas com os amigos. João era apaixonado pelas suas ideias e convicções. E ao mesmo tempo plural. Na quarta-feira fizeram questão de se despedir dele muitos botafoguenses, mas também tricolores, vascaínos e rubro-negros. Eleitores de Lula como João, mas também de Bolsonaro. Sambistas, peladeiros, profissionais liberais, servidores da Fusve, amigos de copo e resenhas. Ex-presidente da Fusve, Américo Carvalho, alvinegro como João Gabriel, também se despediu do antigo subordinado. No Cemitério Nossa Senhora da Conceição, o médico Gutemberg Assed, amigo de infância de João, lembrou da coincidência da data da morte. “Sua amizade foi uma grande alegria em uma época dura, de poucos luxos. Íamos de trem para o Maracanã torcer pelo Botafogo. A vida toda ele foi um apaixonado. Pelo Botafogo, pelo samba, pela vida. Apaixonado pela Lucia e pelo Matheus. Quem amou tanto, sintomático que viesse a morrer em um dia como hoje, em que celebramos o amor”.
Foto: redes sociais

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também