Por Sérgio Pereira Moreira
Houve um tempo em que a televisão não cabia no bolso; ela era uma caixa mágica de madeira, imensa, que reunia famílias inteiras na sala sob uma luz em preto e branco. Naquele início dos anos 1960, o Brasil parava para ver o circo entrar pelas antenas no programa do Palhaço Carequinha, na pioneira TV Tupi. Mas, em um sábado qualquer daquela década dourada, o verdadeiro espetáculo não veio do picadeiro. Veio de Vassouras. Veio de uma casa onde as paredes não respiravam silêncio, mas sim música.
Sob o olhar atento, orgulhoso e exigente do Maestro Anecy Duarte Moreira, cinco irmãos transformaram a infância em harmonia. Enquanto outras crianças corriam pelas calçadas coloniais do Vale do Café, aquela travessia era feita em pautas musicais. A herança do avô Amaro, o velho trombonista, corria viva nas veias daquela meninada. Na produção, por trás das cortinas, firme, determinada, porém, sempre com muito cuidado e afeto estava Lais Pereira Moreira, a mãe dos cinco pequenos grandes músicos.
E então, o dia chegou. Imagine o frio na barriga ao pisar no estúdio iluminado da TV Tupi, no Rio de Janeiro. Naquela época, a televisão era um salto sem rede de proteção: tudo era feito ao vivo. Não havia espaço para o erro. Cada nota precisava ser exata, cada batida no tambor precisava ser certeira.
A cortina se abriu, as luzes se acenderam e o Conjunto Mirim Irmãos Moreira tomou o palco — um momento eternizado em uma antiga e preciosa fotografia em preto e branco, que guarda em suas marcas e dobras o retrato vivo daquele dia.
Quem olhava para aquelas crianças pequenas no palco não imaginava a imponência do som que estava por vir. Na linha de frente da imagem, congelados no tempo com a postura de veteranos, vemos os meninos com seus metais e palheta. O menino Amaro conduzindo o saxofone com maturidade. Ao seu lado, Cláudio empunhando o pistom; o brilho do metal refletia nos olhos do menino que, mal sabiam os telespectadores, passaria o resto da vida transformando a música em missão de vida. O som do seu trompete cortava o estúdio com a força dos predestinados. E para fechar a trindade dos sopros, Sérgio abraçava o bombardino, preenchendo o ambiente com o som grave, doce e aveludado do contracanto que dava alma à partitura.
Atrás deles, a engrenagem rítmica que não deixava o chão vacilar. Na foto, destaca-se o bumbo decorado da bateria onde Celso, firme e concentrado, ditava o compasso do tempo e o pulsar dos corações do Maestro Anecy e sua esposa Lais, que assistiam de longe ou nos bastidores. E completando aquela constelação, a menina Sônia, com a delicadeza e a precisão de suas mãos na percussão, dava o brilho final, o sotaque e o charme que só uma união perfeita entre irmãos poderia produzir.
Eles não eram apenas calouros. Eram uma mini orquestra impecável. Ver crianças dominando instrumentos de sopro tão complexos quanto o piston e o bombardino quebrou a rigidez das telas de TV. Naquele instante, Vassouras inteira sintonizou a mesma frequência, transbordando de orgulho ao ver seus filhos ilustres mostrarem ao país a riqueza que nascia em suas terras.
As luzes do estúdio da TV Tupi se apagaram há décadas e muitas fitas daquela era se perderam. Mas o registro mais importante sobreviveu. Ele não depende de arquivos digitais: está impresso no papel envelhecido que a família guarda com tanto amor, no orgulho de uma linhagem, no eco de cada ensaio na sala de casa, no maestro que Cláudio se tornou e, acima de tudo, na memória de quem sabe que a infância dos Irmãos Moreira foi escrita em clave de sol.
O som daquele dia em 1964 continua ecoando. Basta olhar para a fotografia e fechar os olhos para ouvir o saxofone de Amaro, o pistom de Cláudio, o bombardino de Sérgio, a bateria de Celso, a percussão de Sônia e a batida dos corações de Anecy e Lais. Eles tocaram para o Carequinha, mas o aplauso eterno pertence à história de Vassouras.

Histórico e Legado Familiar
Nascido no seio de uma das famílias de maior tradição musical do Vale do Café, o Conjunto Mirim Irmãos Moreira representou a continuidade de um legado liderado pelo pai das crianças, o estimado músico, saxofonista e clarinetista vassourense Maestro Anecy Duarte Moreira e iniciado pelo avô, o trombonista Amaro da Costa Moreira.
Estimulados pela rica atmosfera musical de Vassouras e sob a orientação rigorosa e afetuosa do Maestro Anecy, os cinco irmãos formaram na infância uma verdadeira mini orquestra de sopros e percussão. O talento precoce das crianças rompeu as fronteiras regionais e levou o nome de Vassouras ao maior palco da televisão infantil brasileira da época: o auditório ao vivo da pioneira TV Tupi, comandado pelo icônico Palhaço Carequinha.
Formação Oficial e Instrumentação
O conjunto destacava-se pela complexidade de sua linha de frente (metais e palheta) e pela sólida sustentação rítmica, uma estrutura típica das grandes bandas de coreto, adaptada para o universo mirim:
- Amaro Pereira Moreira – Saxofone
Responsável pelas linhas melódicas principais e pelo timbre encorpado da palheta.
- Cláudio Pereira Moreira – Piston (Trompete)
Responsável pelo brilho e pela condução dos agudos (irmão que, no futuro, perpetuaria a tradição familiar como o Maestro Cláudio Moreira, liderando o projeto Integração pela Música).
- Sérgio Pereira Moreira – Bombardino (Eufônio)
Responsável pelo contracanto e pelo preenchimento harmônico dos sons graves de sopro.
- Celso Pereira Moreira – Bateria
Responsável pela pulsação, condução rítmica e dinâmica dos números musicais.
- Sônia Pereira Moreira – Percussão
Responsável pelas nuances rítmicas e pelo brilho percussivo que completava a identidade do grupo.
O Impacto da Apresentação
Apresentar-se nos anos 1960, ao vivo na TV Tupi, exigia precisão técnica absoluta, pois não havia o recurso de edições ou gravações prévias (videotape) para calouros. Ver cinco crianças dominando instrumentos de tamanha complexidade técnica — como o piston e o bombardino — causou grande impacto no público de auditório e nos telespectadores fluminenses. A performance coroou a infância dos irmãos e se consolidou como uma das páginas mais bonitas da história da música e da cultura popular de Vassouras.
