11:50 - 20 de fevereiro de 2026.

Quando a infância encontra a dor: a luta de Ana Lu...

Quando a infância encontra a dor: a luta de Ana Luíza contra a depressão

 em Saúde

Jovem vassourense luta contra a doença e família pede ajuda para tratamento com ECT

 

A história de Ana Luíza não começa no hospital. Começa em uma infância comum, em Vassouras, cheia de imaginação, vídeos caseiros e sonhos generosos. “Ana Luíza sempre foi uma menina muito doce, esperta, engraçada e estudiosa. Gostava de brincar de boneca, gravava vídeos no antigo Musicaly, queria ser youtuber”, lembra a mãe, Amanda Berenice. Ela adorava ler, escrever poesias, inventar histórias com a irmã para um canal no YouTube que não foi adiante, mas deixou memórias felizes.

Até que algo começou a mudar.

Ana passou a chorar antes de ir à escola. Não queria mais frequentar as aulas. Quando conseguia chegar, a família era chamada para buscá-la pouco tempo depois. “Chegamos a achar que era bullying, mas ela sempre se deu bem com os colegas. Quando perguntávamos o que havia acontecido, nunca havia um motivo”. A troca de escola não resolveu. Foi quando a própria menina disse: “O problema sou eu. ”

Aos 9 anos, veio o primeiro diagnóstico: Transtorno de Ansiedade Generalizado. “Foi muito difícil, mas ao mesmo tempo um alívio saber o que era, para tentar lidar com a situação. ” A partir dali, a dinâmica da família mudou. A supervisão aumentou, a preocupação também. “Não só ela adoeceu, a família inteira adoeceu devido a tantas frustrações. ”

Com o tempo, a depressão se instalou. Vieram as roupas escuras, o moletom com capuz sob sol forte, o olhar baixo. “Ela dizia que no coração havia um buraco muito grande que doía muito. ” Chorava deitada ao lado da mãe, falando de uma dor sem nome. Tentou iniciar duas faculdades, mas não conseguiu continuar. Dormia o tempo todo. Isolava-se. “Ela diz que não tem forças. Quando falamos frases positivas, responde: ‘Mãe, isso não funciona para mim’. ”

A automutilação foi revelada por um detalhe. Um dia, sem o moletom, a mãe viu um queloide no braço. Perguntou o que era. “Embora na minha cabeça eu já soubesse. ” Ana abaixou a cabeça e chorou. Confirmou. “Respirei fundo, tentei não chorar e mostrei que ela podia contar comigo. ”

A culpa veio, mesmo sem ter culpa. “A automutilação infelizmente se torna um vício. Uma mínima situação pode ser um gatilho. ” A família tentou protegê-la criando uma espécie de bolha. Mas a vida, como lembra a mãe, é feita de altos e baixos. “Infelizmente ela viveu mais tempo triste. É como se a tristeza fosse uma zona de conforto. Mas creio que, bem lá no fundo do coração dela, existe uma esperança. ”

O mais devastador, conta, são as palavras. “Ouvir que ela não quer viver e me pedir para liberá-la é devastador. ” Entre raiva, culpa e amor, a mãe segue. “Tenho o sentimento de impotência, mas me sinto grata por ela confiar em mim para contar o que faz. ”

 

Depressão Refratária – quando a depressão não responde aos tratamentos convencionais, mesmo após tentativas adequadas.

Em termos médicos, costuma-se considerar refratária quando a pessoa não apresenta melhora significativa após pelo menos dois antidepressivos diferentes, usados na dose correta e pelo tempo adequado, muitas vezes associados à psicoterapia.

A depressão é uma condição complexa, que envolve fatores biológicos, psicológicos e ambientais. Em alguns pacientes, o cérebro simplesmente não responde como esperado às medicações tradicionais.

A depressão refratária costuma estar associada a maior risco de ideação suicida; internações recorrentes; prejuízo funcional importante e sofrimento intenso e prolongado.

Por isso, quando os médicos indicam abordagens como a ECT, geralmente há um critério clínico claro: urgência e gravidade.

 

Tratamento – No último ano, foram nove internações. Em uma delas, 42 dias hospitalizada. “Tentou contra a própria vida dentro do hospital. Achei que receberia a notícia de que havia perdido minha filha. ” A voz falha na memória, mas faz questão de registrar: “Não responsabilizo o hospital. A equipe sempre foi muito solícita e excelente. ”

Tratamentos medicamentosos, terapias, grupos terapêuticos e Quetamina foram tentados. A Quetamina trouxe esperança, mas não funcionou para Ana. Agora, a indicação é a eletroconvulsoterapia, a ECT. “O tratamento tem demonstrado grande eficácia na depressão maior, com comprovação científica. Hoje é feito sob sedação, com segurança. ” Apesar do preconceito ainda associado ao procedimento, a família vê na indicação uma nova possibilidade. “Queremos muito que ela responda bem, mas temos ciência de que pode não dar certo. Nossa esperança nunca irá morrer. ”

Como o tratamento não é oferecido pelo SUS, a família ingressou com ação judicial contra o município de Vassouras e venceu em primeira e segunda instância. Mesmo assim, a urgência permanece. “Devido à gravidade e às várias tentativas contra a própria vida, não podemos esperar. ”

Enquanto aguardam o encaminhamento definitivo, Ana está internada em uma clínica particular. Apenas 30 dias de internação custam, em média, R$ 24 mil. As diárias são de R$ 780. O plano de saúde cobre parte, mas exige coparticipação de 50% dos custos hospitalares. A estimativa da vaquinha on-line é de R$ 60 mil para cobrir coparticipações, medicamentos, deslocamentos e outras despesas do tratamento.

“A ideia surgiu no meio do desespero”, admite a mãe. A irmã gravou um vídeo contando a situação e a repercussão foi maior do que imaginavam. “Perdi minha vergonha e comecei a gravar vídeos falando sobre a Ana Luíza. ” A meta já ultrapassou 10%.

Hoje, Ana está estável, ainda com pensamentos negativos e humor oscilante, mas participando de oficinas na clínica. Pequenos passos, grandes vitórias.

Para outras famílias que enfrentam a depressão infantil, a mensagem é firme: “É difícil, dói, mas não desistam. Busquem seus direitos e não aceitem tratamentos sem dignidade. Toda vida é importante e quanto a isso não há negociação. ”

 

Vaquinha – A luta de Ana Luíza não pode esperar. Enquanto a família aguarda a efetivação do tratamento indicado pelos médicos, cada dia representa custo, desgaste e, sobretudo, urgência. A vaquinha criada para custear a internação, as coparticipações do plano de saúde, medicamentos e despesas do tratamento tornou-se uma ponte concreta entre o desespero e a esperança.

Hoje, qualquer ajuda faz diferença. As contribuições podem ser feitas pelo Pix [email protected] ou pela plataforma on-line:
https://vaquinhadorazoes.com/vaquinha/1770328895729×249428522620944400

“Não desistam da nossa filha”, é o que ecoa nas entrelinhas da fala dessa mãe que segue firme. Em uma batalha contra uma doença invisível e ainda cercada de preconceito, solidariedade também é tratamento.

 

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